Nach - Entrevista



Lisboa, 9 Dezembro 2011

“Completo, é a palavra para este disco”


Sala TMN Ao Vivo, 17H em ponto para a entrevista marcada com Nach, de visita ao país para três datas. Faro, Lisboa e Porto receberam um dos maiores embaixadores do Hip Hop espanhol para a apresentação do quinto disco de originais “Mejor Que El Silêncio”. Ninguém sabia de Ignacio Fornes - nome artístico de Nach - até o manager o ter denunciado. Estava na rua a ver o rio Tejo. 
Aos 37 anos, lança o quinto disco de uma carreira já consolidada em Espanha e nos países da América do Sul, onde se sente bem recebido porque entendem o que diz. Usa a poesia para comunicar, homenageia permanentemente a música e tem no Hip Hop a ferramenta para chegar a todos. É um dos expoentes máximos do género em Espanha, quase um guru, preenche o palco com a energia de um novato e tem uma capacidade de escrita fora do comum. Olheiras a revelar poucas horas de sono, casaco de lã a fintar o frio, ar afável, discurso focado e assertivo. É este Nach que recorda a noite em que tocou no Carviçais Rock, que se confessa preocupado com as grandes indústrias, que brinca sobre a sua família de 8 irmãos e 15 sobrinhos, que revela a admiração pelos músicos com quem trabalha, que explica o quão se sente desafiado a escrever temas novos e que admite que “Mejor Que El Silêncio” é, finalmente, um disco completo.



1 – Esta é a segunda vez que estás em Portugal. Já passou algum tempo desde 2006, quando estiveste no Carviçais Rock, no norte do país. Lembraste dessa noite?
Sim, lembro-me perfeitamente! Tocamos na mesma noite de Fat Joe e Mind da Gap. Foi depois do lançamento de “Ars Magna/Miradas” e lembro-me de que falei com espanhóis, portugueses e ingleses na mesma noite. O concerto correu muito bem e o público estava a gritar as músicas! Estava um bom ambiente nessa noite.

2 – E desta vez, que espectáculo nos trazes?
Este é um espectáculo, principalmente, dinâmico, onde dou, não só, toda a minha energia em palco, mas temos uma performance. Temos backvocals, dois MC’s espanhóis muito bons, o DJ não está só a fazer scratch, ele tem uma performance. Não queremos debitar apenas as músicas, queremos dar um espectáculo. Não é um concerto só sobre este disco, há alguns temas mais antigos também no alinhamento e que as pessoas talvez conheçam melhor.

3 – Como defines este disco “Mejor Que El Silencio”?
Completo, é completo. Acho que a melhor definição para este disco é completo. É um disco muito ambicioso porque quis trabalhar com muita gente neste disco. Tem muitas vozes diferentes e muita musicalidade. Houve muito trabalho… Coisas que tenho aprendido, coisas que o meu manager tem tratado. Isto não é só música; há um enorme trabalho de logística. Não é só chegar ao estúdio e gravar as músicas. Há marcações, horários, hotéis, refeições, viagens… Tudo tem que ser bem gerido para chegar ao produto final e este é o resultado de todo esse trabalho e organização. Finalmente posso arriscar e dizer que, desta vez, fiz um álbum completo. E muito pessoal, também. Falo de diferentes experiências. Não trato só temas de rap, falo sobre questões sociais, questões humanas, coisas que estão à minha volta.

4 – E a nível instrumental?
Tive a honra de trabalhar com o Moisés Sanchez, um pianista de Madrid, um verdadeiro génio para mim. Ele trouxe uma vertente mais épica, mais orgânica, mais dinâmica ao disco. Ele captou a minha essência, percebeu quem eu era e qual a minha natureza, e quando me mostrou seis faixas que tinha produzido, fiquei completamente rendido e convidei-o para trabalhar comigo. Eu falava-lhe sobre os temas que queria abordar e ele construía a música à minha imagem. Trabalhei com Baghira, um produtor de Sevilha. É um tipo que mistura tão bem o old school com o new school! Só tem 23 anos e capta os dois estilos muito bem. Quando ouvi beats dele fiquei impressionado e também o convidei para trabalharmos juntos. Tem uma grande atitude nos beats! Trabalhei com um produtor grego que conheci no projecto “Diversidad”, trabalhei com Cookin Soul, entre outros. Foi um privilégio trabalhar com todos eles!

5 – És já um artista consolidado e com uma carreira coerente na cena Hip Hop. É este o momento para a derradeira internacionalização?
Tenho tentado ser! Acho que sim! Tenho estado onde me têm dado essa oportunidade. Hoje estou aqui em Portugal, há duas semanas atrás fizemos dois concertos na Guiné e foi brutal, estava completamente cheio, e temos passado muito tempo na América do Sul. Só sei que temos trabalhado, em conjunto, para chegar o mais longe que conseguirmos. Não sei se este o momento da internacionalização, mas temos tocado em vários países, maioritariamente, hispânicos. Na Europa não me entendem, é muito mais complicado.

6 – Quem gostarias realmente que ouvisse este disco?
Eu só quero que as pessoas ouçam este disco... Não me importo se são pessoas mais ligadas ao rap ou não - apesar de serem essas pessoas que talvez me compreendam mais facilmente – quero que todo o ser humano ouça a minha música. Tive uma experiência maravilhosa de um rapaz com uns 14 anos que estava na rua com o avô e me disse “o meu neto mostrou-me a tua música e tu dizes aquilo que eu quis dizer há décadas atrás; tens a liberdade que eu não tive. Não fazia ideia de que a música podia fazer isso!” Isto surpreende-me. O que posso esperar mais?! É isto que quero ouvir de vez em quando. Se isso acontecer, o meu disco chegou às pessoas certas.

7 – A tua música mostra que és uma pessoa urbana, o que está directamente ligado ao Hip Hop. É essa a tua filosofia de vida? Sentes-te um agente desta cultura?
Eu sou eu. Não sou só um gajo do Hip Hop, sou muito mais que isso. Sou Hip Hop e sou tantas outras coisas! Não sou nem me sinto limitado à cultura. Eu coloco todas a minha sinceridade na minha música, esta é a forma que eu concebo a música. O que faço é honesto e só quero encontrar-me nas minhas músicas. Elas são o meu espelho.

8 – O teu discurso e as tuas letras são duras e muito críticas, mostras claramente a tua opinião e os teus ideais. Quais são as tuas grandes preocupações hoje em dia?
As minhas principais preocupações hoje em dia têm a ver com grandes indústrias e empresas dominantes. Às vezes sinto-me triste porque tento encontrar esperança nas pessoas que eu conheço, na minha família e nos meus amigos, mas quando olho em redor, vejo que o mundo é dominado por grandes companhias e grandes empresas, que dominam, por sua vez, as pessoas. Enquanto estas grandes empresas dominarem o Mundo e até o Governo, nada vai mudar. Só vai piorar o estado em que nos encontramos actualmente. Não há futuro assim! Mas é tudo uma enorme contradição e contra mim falo. Tenho um iphone no bolso, que pertence a uma dessas grandes empresas… Eu também estou dentro deste sistema. É tão complicado alcançares paz de espírito e clareza de pensamento no meio disto tudo! E eu sofro com isso, sofro mesmo, quando olho para os meus 15 sobrinhos, porque eles são o futuro. É assustador!

9 – Tens trabalhado com diversos artistas internacionais, nomeadamente, Talib Kweli, Immortal Technique, Akhenaton… Quais são os teus critérios para trabalhares com outros rappers?
Antes de mais, tenho que ter qualquer tipo de relação pessoal com eles. Talvez o Talib Kweli seja o que menos conheço, mas estive com ele algumas vezes. O Immortal Technique também esteve em concerto em Madrid e estive com ele algumas vezes. Tudo tem a ver com uma relação que se estabelece e tem também a ver com a minha admiração pelo trabalho deles. E há também pessoas com quem trabalho que conheço demasiado bem!

10 – Tens uma forma muito peculiar de rimar. Vem-me imediatamente à ideia a “Efectos Vocales” onde escreveste a letra só com as vogais. Como fizeste isto?
Eu acho que quando se trata de arte e tu tens uma ideia, tens que arranjar forma de a concretizar e, depois, superá-la. Em qualquer tipo de arte! Para a “Efectos Vocales”, surgiu a ideia de escrever uma letra só com as vogais. Achei que seria complicado mas decidi fazê-la. Quando comecei a escrever é que percebi a dificuldade porque parecia que já tinha esgotado todas as palavras. Andava com um caderno a perguntar às pessoas palavras! Demorou bastante! Gosto muito destas experiências. Eu acredito em mim e acredito sempre que sou capaz.

11 – O ano passado, houve uma grande polémica nos media espanhóis, nomeadamente, no El Mundo, a respeito da tua frase “Yo pongo condóm”. O que se passou?
Foi algo que já esqueci mas o que se passou foi que estava a dar na televisão uma campanha publicitária com a frase “Yo pongo condóm”, que é uma frase de uma música minha. Todos pensaram que eu era o autor do anúncio, mas estava tão mau da forma que o fizeram, que eu senti necessidade de reivindicar e dizer que não era meu. Quis que toda a gente soubesse que eu não tive a ver nada com isso e afectou-me negativamente. A imprensa acabou por exagerar neste assunto e isso fez-me sentir mal. Mas o âmago da questão é que se o Alejandro Sanz faz uma música e o Governo quer coloca-la num anúncio, vão pedir-lhe autorização. Mas se a música é do Nach ou de outro artista que não é mainstream, nada acontece… Não têm noção. Pensam que somos burros e que não sabemos o que se passa. Por isso decidi falar.

12 – Continuas a viver em Alicante?
Sim! Estou alguns dias em Alicante, quando preciso de descansar e no Verão, principalmente. Estou grande parte do meu tempo em Barcelona e Madrid, mas continua a viver em Alicante. O único problema é que é uma cidade pequena e, por vezes, torna-se aborrecida. Mas Alicante é a minha cidade e onde regresso sempre.


Por: Vanessa Cardoso

Um especial agradecimento à Vanessa por nos ter cedido, muito gentilmente, esta entrevista.

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