Editor discográfico quer banir palavrões do Hip Hop






O fundador da lendária Def Jam quer banir palavras ofensivas.
Tudo começou quando o DJ Don Imus, aos microfones da estação de rádio onde trabalha, usou uma série de expressões do calão associado ao hip hop para descrever uma equipa feminina de basketball. "Some nappy-headed hos" (expressão intraduzível, mas de evidente teor misógino e sexista), disse no ar, o que não só lhe valeu o despedimento como o lançar de um debate sobre o carácter ofensivo que alguma linguagem associada ao hip hop usa frequentemente.


Quem marcou pontos, logo a seguir, foi o veterano Russell Simmons. Fundador da Def Jam Records (uma das mais lendárias editoras de hip hop), veio a público em defesa de uma atitude mais prudente, pedindo aos responsáveis por estações de rádio e editores que, voluntariamente, removessem (ou escondessem sob sons agudos de beeps) certas palavras das suas músicas.


Simmons referiu-se concretamente a três expressões, que considera serem ofensivos palavrões. São elas ho, bitch (ambas traduzindo pouco abonatórias referências às mulheres) e nigger (de evidentes conotações raciais).


Das primeiras disse serem desrrespeitosas e misóginas, apontando-as como herança de uma história de dor e humilhação a que foram submetidas as mulheres afro-americanas ao longo dos tempos.


Da última, critica o tom com que se encara uma expressão com uma história colectiva que descreveu como marcada pela opressão e desigualdade contra afro-americanos e outras pessoas de cor. Perante esta selecção de alvos, que apontou como lesivos para a própria imagem pública da cultura hip hop, Simmons propôs a criação de um grupo de trabalho ao nível da indústria discográfica que criasse uma espécie de código a usar tanto nas letras das canções como na imagens que as veiculam.


Na semana passada, Russel Simmons chegou mesmo a convocar um encontro entre diversos executivos discográficos. O desafio de Simmons gerou duas respostas imediatas. Uma delas, do seio da indústria, sugere que quer censurar o hip hop (ao que respondeu que, na verdade, mais não procura que a promoção de um outro respeito pela comunidade e cultura afro-americanas).


A outra resposta, dos media, foi o transformar desta ideia num debate alargado que já chegou às páginas dos jornais e programas de TV. Ophrah Winfrey dedicou duas emissões à questão "o que vai mal no hip hop?". E a última edição do 60 Minutes trouxe o assunto à berlinda, numa reportagem na qual mostrou o rapper Cam'ron a afirmar que cooperar com a polícia num qualquer caso afectaria a sua reputação profissional, além de representar uma atitude contrária aos modos como foi educado.


Mais que um debate sobre a liberdade de expressão no hip hop, o caso parece lançar uma reflexão maior sobre o estatuto que este espaço começa claramente a ocupar na cultura mainstream americana actual.



Fikem bem

A.Silva

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