Graffiti - Pontos de vista

Após ter visto o filme Style wars, tive a sensação que fui confrontado com uma realidade do graffiti que nunca me tinha apercebido e que me ajudou a formular e reformular certas ideias que venho tendo até aqui.

1- Razões que levam as pessoas a pintar? Motivações?
2- Até que ponto, o graffiti é uma linguagem de intervenção?
3- O porque desta sensação de separatismo que existe no graffiti.


1-Desde que vi ‘Style wars’ que tenho cada vez mais convicção que as motivações de um writter são estritamente pessoais e é fácil demonstrá-lo, os comboios são preferidos para as pinturas porque são alvos móveis e transportam essencialmente o nome dos writters de local para local ajudando-os a fazer o seu nome nas ruas. E é preciso ver que estas demonstrações de skills destinam se a um meio restrito daqueles que compreendem o graffiti, pois o importante é obter reconhecimento entre os pares, e isto já vem desde Taki 183, ele escrevia o seu tag por todo o lado e chegou-se á conclusão que ele era famoso e a partir daí todos queriam espalhar o seu nome pelas ruas, para dizer que estiveram ali, isto é, uma forma de afirmação pessoal perante outros.
Se virem ‘Style wars’ e estiverem atentos às explicações de Skeme, Case2 e Dust, todas elas convergem para aquilo que disse antes.
Todos vemos que os writters espalham o seu nome e a sua crew por todo o lado, vamos chamar-lhe publicidade gratuita, desde o início que é assim e continuará a ser. Não estou a dizer que o graffiti é uma arte egoísta e sem fundamento, apenas me refiro a situações em que elementos mais jovens que quando começam a pintar, dizem que pintam porque estão contra o sistema, mas dizem-no como cliché e não têm noção daquilo que estão a dizer, pois pintam pela adrenalina de fazer um bombing num local arriscado ou pelo direito de se gabarem aos amigos, e só muito mais tarde se vêem a tomar consciência que o graffiti está para além de um silver na parede, pois quem faz graffiti cria tem um tag e automaticamente está a criar um ‘eu’artistico, e isto ao inicio pode parecer um mero passatempo mas depois vamos vendo como influencia a nossa vida.

2-Claro que o ponto de vista anterior vai colidir com a segunda questão.
É notório que as razoes pessoais prevalecem no graffiti, vê se maior quantidade de bombing (maior rápido de se fazer, o que é necessário muito devido às circunstancias)do que ‘fames’.è evidente que nem todos trabalham para o ‘fame’ nem para o ‘Bombing’, é tudo graffiti.E de onde surge o carácter interventivo deste?
O graffiti intervém na paisagem urbana, é algo que nos é imposto pois somos confrontados com o que anda nas paredes, claro que só olha quem quiser, mas ele anda aí e tanto podemos encontrar um a reivindicar algo como um grande silver com o tag respectivo.
Actualmente, o street art parece-me muito mais intervencionista do que Hall of fame e o bombing, não quero transmitir a ideia que o graffiti em si, perdeu ou nem sequer tem este carácter, ele possui-o, ele nasceu com ele mas julgo-o algo adormecido, porque nesta altura o street art é uma forma mais apetecível de transparecer esta perspectiva de intervenção que venho a falar.

3-Com os tempos apercebo me que este é bomber, aquele é writter, este dedica-se apenas ao stencil e stickers, uma espécie de especialização dentro do meio que promove um certo separatismo (pelo menos para mim surge daí a ideia separatista)digo isto porque tudo o que vejo e pela net fora, opiniões de writters old school explicando inúmeras vezes toda a união e solidariedade de antigamente, mas isso é como tudo na vida porque quanto maiores forem as coisas mais difícil é de as compactar.
Em Portugal, o graffiti sofreu um crescimento absurdo e deixou de se cingir às áreas metropolitanas de Porto e Lisboa: O seu crescimento é notório e o acrescentar de militantes leva ao adicionar de novas mentalidades. Diferentes mentalidades, diferentes concepções de graffiti, o que é muito bom para a originalidade, mas para onde caminha o graffiti, será que as concepções do pessoal da minha geração converge para os ideais dos mais antigos? As ideias serão diferentes, mas os conceitos base espero que sigam a mesma linha.
Os mais velhos deviam ajudar mais novos a cimentar estas ideias, e não rotula-los apenas como toys, pois quando eles eram mais novos de certeza que tiveram quem os ajudasse e a chegar aonde chegaram.
Quando penso nesta arte, lembro me de palavras como amigo, união e espírito de equipa e criar laços entre gerações e diferentes crews é algo que aprecio bastante e que me dá um gozo especial em ver por aí…


Nota final: Neste post, não pretendo responder totalmente às questões, apenas me cingi a alguns pontos de vista, pois existem certos argumentos que teriam muito para ser explicados, se quiserem expressar quanto a algo do que foi escrito, a secção dos comentários está à disposição.


A.Silva
Fiquem bem

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